Por qué no te callas, Monarquía?

7.6.14

Artículo d'en Flávio Carvalho. Sociólogo.
Idioma: Portuguès

O meu primeiro dia como espanhol, um 7 de setembro, por ironia, dia da Independência do Brasil, foi um dos meus dias mais tristes nesses quase 10 anos em que eu vivo na Espanha. Explico. Foi o dia em que, afinal, consegui a dupla nacionalidade e me tornei brasileiro e espanhol, ao mesmo tempo. Triste? Por quê? Não fui eu que busquei? Tornar-me espanhol, sem deixar de ser brasileiro, para mim, fazia parte do meu processo de me tornar cidadão de pleno direito, residindo na Catalunha. Já compreenderão. Seguimos. O caso é que desde haver estudado, no mestrado de ciência política, as virtudes da república, com Platão, eu me tornei republicano convicto. Naquele dia 7 de setembro, portanto, me sentia dando um forte passo atrás, pois a primeira coisa que te obrigam a fazer quando conseguem a nacionalidade espanhola é jurar ou prometer lealdade ao Rei.  Pois bem, agora que a monarquia espanhola voltou a ser notícia, tenho ainda enorme dificuldade de responder as perguntas do meu filho Joan (João, brasileiro e catalão; espanhol), de sete anos: o que faz e pra que serve um rei hoje em dia? Atenção para a incômoda (ainda bem) perspicácia infantil sobre os tempos a que João se refere... Hoje em dia! Também eu, antes de vir morar no Reyno de España, era e felizmente continuo sendo daqueles que associavam monarquia com idade média, contos de fadas, séculos passados, etc. Dois meses atrás, fiquei chocado ao escutar no rádio que ainda hoje a Casa Real Espanhola, país arrasado, em minha opinião, pela crise econômica, desemprego e ordens judiciais de despejo na rua de famílias inteiras, ainda hoje distribui títulos de nobreza aos amigos do rei. Um Duque pra cá, um Conde pra lá, um Marquês pra acolá... Quem foi a pessoa mais importante a receber um desses? A viúva de Franco, o ditador morto. Sem esquecer que o Rei Juan Carlos foi nomeado pelas cortes franquistas somente dois dias após a morte do ditador.  Incrível. Prefiro insistir no meu livre pensamento crítico, de opor essas duas formas de governo incompatíveis. De um lado, os valores típicos da monarquia: imposição de direito oligárquico e de poder político hereditário, entre outros. Mesmo que se trate de uma "autocracia simpática", como afirmou hoje em Barcelona, o jornalista, do programa El Café de la república, Joan Barril. Do outro lado, em situações opostas, o conceito de democracia: livre expressão e escolha popular, igualdade de condições na eleição de representantes do povo, etc. Esses últimos, associados a uma concepção sociológica de "modernidade". Nada a ver com o que na Espanha passou a chamar-se de modernização da monarquia. Duas condições tão incompatíveis quanto "democracia" e qualquer uma ditadura, de direita ou de esquerda. Voltando ao hoje, para não ficar na idade média que antes me referia, tenho a impressão que o Rei da Espanha "foi abdicado". As razões são hipóteses que El País, maior jornal espanhol, progressista, e El Mundo, maior jornal espanhol, conservador, se perguntam. E protestam. Como no caso de boa parte dos espanhóis e europeus que nunca deixaram de ser republicanos. Estará o Rei no seu direito humano (graças ao Iluminismo, há séculos deixou-se de pensar que ser um rei e ser um deus não são a mesma coisa) de retirar-se para cuidar do seu suposto precário estado de saúde? Porque então o próprio Juan Carlos não admitiria isso publicamente? Pesa o fato de que a Espanha, convulsa, indignada, esgotou seus limites de decepção pública com seus próprios valores e instituições, com a corrupção até mesmo investigada dentro da família real? Ou será uma resposta monárquica, articulada com o governo de direita, Partido Popular, (e sutilmente apoiada pelo maior partido de oposição, o centrista e socialdemocrata Partido Socialista, PSOE) porque a Espanha somente começou a romper com o que antes havia sido o seu voto tradicional? Nas últimas eleições europeias, vislumbrou-se um possível começo do fim daquele quase eterno bipartidarismo entre PP e PSOE. Exatamente os dois partidos com maioria no Congresso e que logo prometeram renovar a sustentação da atual monarquia espanhola. Porque o Partido Socialista hoje renega suas origens republicanas e não aceita o pedido popular de referendo, a voz das ruas, dos indignados da Espanha, sobre monarquia ou república, num gesto de mais democracia? Será mera tática para não arriscar e perder o controle sobre uma questão de fundo, que cada vez passa mais na frente de tudo: o crescimento do independentismo na Catalunha, o território mais complicado para a monarquia e, ao mesmo tempo, motor econômico da Espanha? Socialistas e Populares assistem a diminuição gradual dos seus votos há vários anos. Em política, as coisas dificilmente ocorrem por acaso. O partido que, na Catalunha, ficou em primeiro lugar nas recentes eleições europeias, se chama Esquerda Republicana. Seu nome já diz tudo e existe desde o ano 1931. E isso nas eleições de poucos dias atrás, enquanto em vários países da Europa ganharam os xenófobos radicais da extrema direita. O golpe de sorte que resta a la vieja España seria a festa de coroação de um novo rei, jovem e com uma cara mais moderna que a do seu pai, arrependido caçador de elefantes? "El sistema monárquico siempre depende de la velocidad de un espermatozoide" disse  Jorge Verstrynge, um ex político e hoje cientista político espanhol. Repete-se aquilo de que, às vezes, é preciso mudar rapidamente um pouco para que tudo continue da mesma forma. Perde-se um anel (real), para não perder os dedos (ou a coroa). O rei ficou nu, na Espanha. 19 de junho querem vestir um novo rei...

Que bom! Estou farto de tanto Brasil.

Flávio Carvalho. Sociólogo. Maio de 2014.

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